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Rio Branco,29/05/2026

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    Rhamom Menezes

    O Silêncio das Calçadas: a noite que Rio Branco perdeu


    O Silêncio das Calçadas: a noite que Rio Branco perdeu

    Rio Branco sempre teve um jeito muito próprio de usar as suas ruas. Nesse calor sufocante que a gente vive, a calçada nunca foi só um pedaço de cimento; ela sempre foi o nosso refúgio. E o melhor lugar pra esse encontro sempre foi a mesa de um bar, curtindo uma música ao vivo com os amigos reunidos.

    Mas hoje, quem anda pela nossa cidade só vê porta de ferro fechada. Muitos bares e casas noturnas sumiram do mapa. Quem não lembra do Recanto, que era o único bar que acolhia de verdade o público LGBTQIAPN+? Ou do Tardezinha, que animava os finais de semana da galera? A crise e a falta de apoio também levaram o Seringal Bier, que valorizava a nossa identidade com aquela cerveja artesanal e deixava a nossa noite bem mais autêntica.

    Pra piorar a situação, olha o exemplo do "Novo Mercado Velho"  que sempre foi o coração da noitada acreana. A obra de reforma daquele espaço tá parada faz meses. Por causa dessa demora infinita dos atuais gestores, vários donos de bar daquela área foram obrigados a fechar as portas, deixando o nosso principal ponto turístico no escuro.

    Isso tudo mostra a culpa dos nossos políticos, que não têm visão e acham que o lazer do povo não vale nada.

    Até os lugares mais tradicionais sofreram. O Paço, por exemplo, ficou meses fechado e precisou mudar de dono, de nome e de estilo pra tentar não falir. E a Confraria, que antes era parada obrigatória na semana, hoje quase não abre, funcionando só de quando em vez pra algum evento específico.

    Parece que os governantes olham pra noite e pra diversão como se fossem um crime. Eles inventam regras quase impossíveis de cumprir, cobram alvarás caríssimos e proíbem o som ao vivo. Em vez de ajudar o trabalhador a andar na linha, a prefeitura e o estado preferem punir e fechar.

    Eles esquecem que a noite sustenta muitas famílias. Quando um bar fecha, quem dança é o garçom, o cozinheiro e todo mundo da música — cantores, técnicos de som e produtores que vivem da sua arte. Os políticos precisam entender que a vida noturna é cheia de vida e de encontros que importam. É no bar que as pessoas conhecem novos amigos, começam namoros e até discutem política e o futuro da nossa cidade.

    Lazer é um direito de todos, tá na Constituição. Claro que muita gente encontra a sua paz indo à igreja, o que é totalmente legítimo e importante. Mas a cidade tem que ter opção pra todo mundo. Quem não vai a templos religiosos ou não tem dinheiro pra gastar no shopping, vai pra onde? O bar sempre foi o espaço mais democrático que existe, onde o trabalhador relaxa depois de uma semana dura de serviço.

    Se continuarem sufocando os nossos bares e deixando obras públicas pela metade — pra inaugurar só na véspera da eleição —, as ruas vão ficar desertas, escuras e ainda mais perigosas. Rio Branco vai virar uma cidade triste, onde a gente só trabalha e volta pra casa. A nossa capital precisa pulsar.

    E a grande moral da história é bem essa: quando o poder público sufoca a calçada, ele destrói o único lugar onde todo mundo é igual em Rio Branco. O bar nunca foi privilégio de rico e nem lugar de malandro; ele sempre foi o ponto de encontro de toda a nossa gente. É o lugar onde o cara de terno e o cara de chinelo de dedo sentam na mesma mesa, dividem a conta e esquecem as diferenças enquanto escutam um violão.

    No fim das contas, a calçada é o único espelho que sobrou pra gente, onde ninguém é mais e ninguém é menos. A gente não é da elite cheia de grana e nem invisível na pior; somos apenas o povo acreano querendo o direito de existir, sorrir e se misturar. E enquanto a noite não voltar a ser de todos, Rio Branco vai continuar sendo uma cidade sem cor, sem graça e sem alma.


    Rhamom Menezes é produtor e ativista cultural

     @rhamom.menezes



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