Morre o lendário cabeça branca Ariosto Pires Miguéis, o "Raposa Prateada" do MDB e um dos maiores protagonistas da história política do Acre
O Acre perdeu neste domingo (5) uma de suas figuras públicas mais emblemáticas. Morreu, aos 90 anos, Ariosto Pires Miguéis, advogado, administrador público, ex-deputado estadual, ex-secretário de Estado, fundador do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) no Acre, dirigente esportivo e um dos homens que mais profundamente conheceu e ajudou a construir a história política acreana nas últimas sete décadas.

Conhecido em todo o Estado pelos apelidos de "Raposa Prateada" e "Lendário Cabeça Branca do MDB", Ariosto atravessou praticamente todos os grandes momentos da vida política do Acre: acompanhou a transformação do antigo território em Estado, viveu o golpe militar de 1964, enfrentou a perseguição política da ditadura, participou da reorganização democrática, ocupou cargos estratégicos na administração pública e tornou-se uma referência permanente de experiência, memória e articulação política.

Ariosto Miguéis no Bar do Vaz
Sua morte encerra uma trajetória marcada pela dedicação ao serviço público, pela defesa das instituições democráticas e por uma atuação que extrapolou os limites da política, alcançando o esporte, a administração pública e as causas sociais.
Quem foi Ariosto Pires Miguéis
Filho de imigrante português, Ariosto Pires Miguéis nasceu em Rio Branco, em 27 de agosto de 1935. Desde muito jovem demonstrava interesse pela política. Aos 15 anos já participava ativamente das discussões políticas locais, iniciando uma caminhada que se estenderia por mais de sete décadas
Ainda na juventude aproximou-se das lideranças políticas acreanas e, em 1962, participou da campanha de José Augusto de Araújo, eleito o primeiro governador do Acre escolhido pelo voto direto após a transformação do território em Estado. Era o início de uma carreira que se confundiria com a própria história política acreana.
Perseguido pela Ditadura
Dois anos depois, o golpe militar de 1964 mudou completamente o rumo do país e da vida de Ariosto.
Por sua posição contrária ao novo regime, tornou-se alvo da repressão política. Ao saber que seria preso, fugiu inicialmente para a Bolívia, tentando escapar das perseguições impostas pelos militares. A tentativa, entretanto, não foi suficiente.

Raposa Prateada do MDB
Dias depois acabou capturado e levado ao antigo 4º Batalhão de Engenharia e Fortificações (4º BEF), em Rio Branco, unidade militar que funcionava como centro de detenção de presos políticos no Acre.
Anos mais tarde, Ariosto relataria que naquele período sofreu tortura psicológica e agressões físicas.
Após conseguir deixar o Acre, seguiu para o Rio de Janeiro. Com o auxílio de um primo, embarcou para Portugal, onde permaneceu durante aproximadamente um ano, vivendo no exílio. Mesmo distante do país, sua trajetória política não seria interrompida.
Com a implantação do bipartidarismo durante o regime militar, Ariosto tornou-se um dos fundadores do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) no Acre. Em um período em que praticamente não existiam espaços para oposição, o MDB tornou-se o principal instrumento institucional de resistência democrática, reunindo lideranças comprometidas com a defesa das liberdades políticas.
Sua atuação firme na oposição fez com que seu nome passasse a integrar os arquivos dos órgãos de inteligência da ditadura.
Documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI), do Centro de Informações do Exército (CIE) e de outros órgãos de segurança o classificavam como um político que deveria permanecer sob constante vigilância, descrevendo-o como um elemento "muito ativo" na oposição ao regime.
Em 1969, já durante o período de maior endurecimento da ditadura após a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), Ariosto foi processado pela Justiça Militar da 8ª Região Militar, sediada no Pará, com base na Lei de Segurança Nacional.
Ainda naquele ano, o Superior Tribunal Militar (STM) declarou prescrita a pretensão punitiva do Estado, extinguindo os efeitos jurídicos da condenação.
Embora juridicamente absolvido, nunca deixou de ser monitorado pelos órgãos de inteligência.
Os arquivos oficiais mostram que seu nome permaneceu sob vigilância por muitos anos, sendo citado em relatórios que apontavam supostas ligações com integrantes da Frente de Libertação Nacional Esperança (FLNE) e com opositores do regime, entre eles João Moreira de Alencar.
Esses documentos revelam como o aparato repressivo ampliava o conceito de subversão, considerando suspeitas não apenas ações concretas, mas também relações pessoais, discursos políticos e possíveis articulações democráticas.
Nem a perseguição nem a vigilância impediram Ariosto de reconstruir sua vida pública.
Atuação política e amor pelo esporte acreano
Com a abertura política, voltou a ocupar posições importantes na administração pública acreana.
Foi o primeiro prefeito do município de Plácido de Castro, participando diretamente da organização administrativa da cidade em seus primeiros anos.
Também exerceu funções como chefe de gabinete da Prefeitura de Rio Branco, fiscal de Rendas Municipais, superintendente da Polícia Agrária, superintendente do Serviço Rural do Acre e presidente do Lloyd Libra S/A, empresa de navegação que desempenhava importante papel na logística amazônica.
No governo de Nabor Júnior assumiu a Secretaria de Administração do Estado.
À frente da pasta conduziu a primeira grande reforma administrativa do Acre, considerada um marco na modernização da estrutura do serviço público estadual e na organização da máquina administrativa.
Sua capacidade técnica e habilidade política o levaram posteriormente à Assembleia Legislativa do Acre.
Eleito deputado estadual, destacou-se como parlamentar conciliador e respeitado pelos colegas.
Durante o governo Flaviano Melo exerceu a liderança do governo no Parlamento, tornando-se um dos principais articuladores políticos da base governista e contribuindo para importantes debates da redemocratização acreana.
Ao longo de toda a vida permaneceu fiel ao MDB.
Dentro do partido passou a integrar o grupo histórico conhecido como "Cabeças Brancas", formado por lideranças emedebistas que mantiveram viva a oposição democrática dentro das instituições.
Entre os emedebistas acreanos, Ariosto tornou-se uma referência de experiência, equilíbrio, memória política e capacidade de diálogo.
Sua atuação, entretanto, nunca esteve limitada aos gabinetes
Apaixonado pelo esporte, foi um dos fundadores do Atlético Acreano, uma das mais tradicionais agremiações esportivas do Estado. Também trabalhou como treinador de equipes como Atlético Acreano, Andirá e Rio Branco Futebol Clube, contribuindo para o fortalecimento do futebol acreano.
No campo social, participou da criação da Casa do Acre, instituição voltada ao acolhimento de acreanos que necessitavam de apoio fora do Estado, tornando-se também seu fundador e presidente.
Amor a cultura
Sua atuação alcançou ainda a cultura popular, mantendo ligação com a Escola de Samba Unidos do Bairro Quinze, além de diversas entidades comunitárias e sociais.
Legado
Pouca gente conhecia tão profundamente a história do Acre quanto Ariosto Pires Miguéis.
Ele foi um dos fundadores da rede de solidariedade nacional.
Dotado de memória extraordinária e lucidez admirável até os últimos anos de vida, era frequentemente procurado por jornalistas, pesquisadores, historiadores, estudantes e políticos interessados em compreender episódios decisivos da formação política acreana.
Seu conhecimento ultrapassava os livros.
Era testemunha direta dos principais acontecimentos do Estado e, muitas vezes, protagonista deles.
Com sua morte, o Acre perde um dos últimos representantes de uma geração que ajudou a construir as instituições estaduais, enfrentou os anos de exceção, participou da redemocratização e colaborou para consolidar a vida política acreana.
Os mesmos arquivos produzidos pela repressão, que um dia buscaram enquadrá-lo como suspeito, hoje ajudam a demonstrar sua importância histórica.
Ariosto sobreviveu à perseguição, atravessou diferentes regimes políticos, participou da construção administrativa do Estado, fortaleceu a oposição democrática quando ela era praticamente impossível e dedicou grande parte de sua existência ao serviço público.
Sua história não pertence apenas ao MDB ou à política acreana.
Pertence à própria história do Acre.
A partida da lendária "Raposa Prateada" encerra uma das mais longas e relevantes trajetórias da vida pública do Estado, mas deixa um legado permanente de compromisso com a democracia, dedicação ao serviço público, capacidade de diálogo e amor pelo Acre — um legado que continuará presente na memória política acreana por muitas gerações.
Ele deixa esposa e 8 filhos, dentre eles o cineasta, empresário e e ex-presidente da FUG, André Ariosto, o campeão pelo Independência, Álvaro Miguéis.




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