No Acre, nem todo bolsonarista é eleitor de Alan Rick e Márcio Bittar
Pesquisa Travessia revela um eleitorado acreano mais complexo do que a simples divisão entre esquerda e direita e mostra que a força do bolsonarismo não é automaticamente transferida para seus principais representantes locais.
A mais recente pesquisa do Instituto Travessia traz elementos importantes para compreender o atual cenário político do Acre. Mais do que apontar quem está na frente ou atrás nas disputas pelo Governo e pelo Senado, os números revelam um comportamento do eleitor que merece atenção: ser bolsonarista no Acre não significa, necessariamente, votar em Alan Rick para governador ou em Márcio Bittar para senador.
Os números ajudam a explicar essa aparente contradição.
Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro aparece com 50% das intenções de voto no Acre, contra 27% de Lula. É um desempenho que reafirma algo já conhecido: o campo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro continua extremamente forte entre os acreanos.
Quando a pesquisa desce para a eleição estadual, porém, essa força deixa de ser transferida integralmente aos candidatos que buscam representar esse mesmo campo político.
Na corrida pelo Governo, Alan Rick aparece com 37%, seguido por Mailza Assis, com 29%. Embora lidere o levantamento, Alan registra um percentual 13 pontos abaixo daquele alcançado por Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.
No Senado, o fenômeno chama ainda mais atenção.
Gladson Cameli aparece com 35%, Jorge Viana com 32% e Márcio Bittar com 29%. Se esse cenário se confirmasse nas urnas, as duas vagas para o Senado ficariam com Gladson e Jorge, deixando Bittar fora.
Quando analisado o primeiro voto para senador, o sinal fica ainda mais evidente: Gladson Cameli e Jorge Viana aparecem com 22% cada, enquanto Márcio Bittar registra 13%.
Os dados sugerem que existe no Acre um eleitor conservador que não entrega um “cheque em branco” aos candidatos locais simplesmente porque eles estão associados ao bolsonarismo.
Esse eleitor pode escolher Bolsonaro — ou um candidato de seu campo político — para presidente e, ao mesmo tempo, avaliar de maneira diferente os nomes que disputam o Governo e o Senado.
É nesse ponto que surge um dos aspectos mais interessantes da pesquisa: Jorge Viana consegue furar a bolha da ideologia petista.
Mesmo pertencendo ao PT, Jorge aparece competitivo em um estado onde o bolsonarismo demonstra enorme força. Isso sugere que uma parcela de seu eleitorado pode estar olhando para algo que vai além da identificação partidária.
Uma possível explicação está em seu legado político e administrativo e na associação de seu nome a projetos, obras e transformações realizadas no Acre durante sua trajetória pública.
Jorge Viana já foi prefeito de Rio Branco, governador por dois mandatos e senador. Essa trajetória lhe proporciona um grau de conhecimento e uma memória política que ultrapassam as fronteiras tradicionais do eleitorado petista.
É justamente aí que sua situação se diferencia da de Márcio Bittar.
Enquanto Jorge consegue permanecer competitivo mesmo carregando a rejeição que o PT enfrenta em parte expressiva do eleitorado acreano, Bittar não demonstra, neste levantamento, a mesma capacidade de transformar a enorme força eleitoral do bolsonarismo no Acre em votos para sua própria candidatura.
Essa diferença ajuda a desmontar uma leitura simplista da política local.
O eleitor pode ser conservador, votar em um Bolsonaro para presidente e escolher Gladson Cameli para uma das vagas do Senado. Da mesma forma, pode considerar Jorge Viana para a segunda vaga não por ter se tornado petista, mas pela avaliação que faz de sua trajetória e do legado que atribui a ele em favor do Acre.
Isso é voto cruzado. E voto cruzado sempre existiu na política acreana.
Em eleições estaduais, pesam fatores que vão além da ideologia nacional: trajetória, obras realizadas, serviços prestados, capacidade de articulação, avaliação de governos anteriores, confiança pessoal, presença nos municípios e a relação construída por cada político com a população.
A pesquisa Travessia, portanto, deixa um alerta principalmente para aqueles que acreditam que basta possuir o apoio de Bolsonaro ou ocupar o espaço político da direita para receber automaticamente os votos desse eleitorado.
Bolsonaro pode ter 50%. Isso não significa que Alan tenha 50%. Muito menos que Bittar tenha 50%.
Cada candidatura precisa construir sua própria relação com o eleitor.
E o desempenho de Jorge Viana talvez seja a demonstração mais clara disso. Em um estado fortemente conservador, um político histórico do PT continua disputando diretamente uma vaga no Senado. Seu percentual indica que seu nome consegue alcançar um espaço eleitoral maior do que a fronteira partidária tradicional de seu partido.
No fim, a mensagem dos números é relativamente simples:
nem todo bolsonarista é Alan. Nem todo bolsonarista é Bittar. E nem todo voto em Jorge Viana precisa ser interpretado como um voto ideológico no PT.
O eleitor acreano parece separar cada vez mais a eleição nacional da disputa local.
A direita no Acre é maior do que Alan Rick e Márcio Bittar. Assim como a votação potencial de Jorge Viana pode ser maior do que o eleitorado tradicional do PT.
Quem compreender primeiro essa diferença talvez compreenda também para onde a eleição de 2026 está caminhando.





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