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Rio Branco,01/06/2026

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    Rhamom Menezes

    A arte não pode ser por dinheiro


    A arte não pode ser por dinheiro

    Outro dia eu estava em casa ouvindo um samba de um compositor de Manaus que eu gosto muito, o Júnior Rodrigues. É um samba bonito pra caramba, com uma letra bem crítica que fala sobre o corre de quem vive da música. Tem uma parte que diz mais ou menos assim:

    “Você tem que aprender que tocar por prazer às vezes atrapalha. Essa frase clichê, ‘Tocador quer beber’ é dar soco em navalha. Corre atrás do couvert pra ganhar teu cachê e não viver de migalha...”

    No mesmo dia, saindo do trabalho, vi um cartaz desses de festa gourmetizada: cheio de luz quente, com uma tipografia bonita e aquela gente sorrindo, segurando copo americano como se fosse taça de cristal. Tinha um letreiro enorme: “MÚSICA AO VIVO”.

    Rapaz… Música ao vivo.

    Na hora lembrei do tempo em que a minha principal renda vinha da noite. A galera acha que música ao vivo brota do chão, igual mato depois da chuva. Ninguém vê o músico carregando caixa de som às quatro da tarde. Ninguém vê o sujeito montando retorno enquanto o dono do evento fala ao telefone sobre a temperatura da cerveja e o camarão que o fornecedor ainda não entregou. O artista chega cedo, passa o som, espera por horas e, no final, muitas vezes ainda tem que escutar:

    — A gente não tem cachê, mas vai ser ótimo para a sua divulgação.

    O motor invisível da boemia

    Divulgação. Essa palavra devia vir escrita em neon vermelho, igual bordel de filme antigo. Porque, no Brasil inteiro, existe uma categoria de trabalhador que paga para trabalhar e ainda precisa sorrir no palco: o músico.

    O dono da festa ganha na entrada. O bar ganha no combo. O influencer ganha no story. O segurança ganha a diária. O estacionamento ganha do jeito dele, mas ganha. Até o cara que vende pipoca na frente do samba volta para casa com o dele garantido.

    Mas o músico… Ah, o músico vai na bilheteria. O risco é dele. A gasolina é dele. O repertório é dele. A garganta é dele. A humilhação também. Tem noite que o sujeito canta cinco horas para receber menos que o valor de uma garrafa de uísque vendida na mesa do camarote. E detalhe: sem a música, não existia camarote. Sem o músico, não existia nem o letreiro colorido: "Música ao Vivo!".

    Claro que existem casos em que o próprio artista faz esse tipo de proposta para mostrar o seu trabalho, mas a crítica aqui é quando isso vira regra. Um dia conto como comecei a trabalhar em um ex-bar famoso aqui da cidade; bati na porta do estabelecimento com a proposta de divulgar meu trabalho, mas o desfecho foi totalmente diferente. O ponto é como a engrenagem funciona de maneira geral. Sei que há exceções, mas infelizmente as exceções estão quase virando a regra.

    A verdade é essa: a música é o motor invisível da noite boêmia. É ela que faz o sujeito feio se sentir galã (não é o meu caso). É ela que faz casal brigado voltar a dançar. É ela que convence gente triste a sair de casa. Festa sem música não existe, nem nos cultos dias de domingo. Mesmo assim, o músico continua sendo tratado como um detalhe decorativo. Igual planta de recepção.

    O povo ama a música, mas não gosta do músico.

    Uma vez, nessas minhas andanças de madrugada, antes mesmo de eu virar produtor, conheci um cantor desses da noite. Voz bonita, rouca do jeito certo. O homem cantava bolero como quem carregava o mundo nas costas. Terminava o show ensopado de suor e só ia receber o cachê quatro dias depois — isso quando não atrasava uma semana inteira, colando com a outra tocada. Nesse dia, bebi uma cerveja com ele e o cara mandou a real:

    — O povo ama a música, Rhamom. O problema é que ninguém gosta do músico. Nem o dono do bar gosta, só atura a gente.

    Aquilo grudou na minha cabeça. Anos depois, já do outro lado, como produtor, entendi perfeitamente. As pessoas querem a emoção, mas não querem pagar por quem emite essa emoção. Querem a trilha sonora da própria felicidade a preço de banana.

    Tem uma fala no filme “Amarcord”, do Fellini, que diz que “a vida é uma confusão barulhenta tentando parecer elegante”. E é bem isso. O circuito noturno inteiro vive tentando parecer sofisticado em cima da precariedade dos artistas. E o mais engraçado é que sempre aparece um abençoado dizendo:

    — Mas a arte não pode ser só por dinheiro.

    A romantização da miséria

    Claro que não pode. Nem a padaria, nem a farmácia, nem o posto de gasolina. Experimenta pagar o aluguel com aplauso para ver se o proprietário aceita.

    A romantização da miséria artística talvez seja a maior filha da putice produzida pela classe média brasileira. O músico precisa amar o que faz, precisa tocar “por paixão”, precisa “fortalecer a cena”. Fortalecer a cena… Bonito isso. Só esqueceram de fortalecer quem de fato sobe no palco.

    O cara se joga na apresentação, se entrega por inteiro, mas a conta chega. É como diz o samba do Júnior Rodrigues que citei lá no começo:

    "Muitos não vão te valorizar mesmo que você valha, mas também nunca vão me calar me vestindo mortalha. Reconheça o cantor popular que merece medalha. Na madruga ele enruga tocando no bar, essa vida é batalha."

    No fim da noite, quando se desmonta tudo, a poesia acaba. Sobra o músico atravessando a cidade de madrugada, com os cabos todos embolados no porta-malas e o ouvido zunindo sozinho.

    O dono do bar avisa de longe:

    — Daqui a quatro dias te mando teu pix.

    Enquanto isso, no Instagram da festa, entra a postagem oficial:

    “Que noite incrível!”

    Foi mesmo. 

    Teu...


    Rhamom Menezes é produtor e ativista cultura

    @rhamom.menezes



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