Rhamom Menezes
A solidariedade dos outros com a cerveja dos tolos
A pandemia, meus amigos, não foi apenas um vírus; foi o maior palco da hipocrisia humana. E no teatro da miséria, a música e a boemia foram as primeiras a receber a ordem de despejo. Quem vivia de som ou de bandeja na mão viu o bico sumir e o salário evaporar da noite para o dia com o lockdown. Havia, claro, uma curiosa exceção imunológica: pelo que consta nos decretos da época, o vírus não circulava pelas igrejas, apenas pelos bares. Mas fechemo-nos às ironias teológicas da saúde pública e das politicagens, pois a fome não escolhe credo.
No silêncio absoluto daquelas noites sem noite, o bipe do WhatsApp era o único eco que restava. Até que o telefone toca.
— Ô Rhamomzin, como tu tá, bicho? — era a voz do rapaz que eu produzia.
— Opa, bebê! Tô bem, e tu? — respondi com aquele "bebê" que é o pronome de tratamento oficial de dez entre dez músicos. Uma saudade misturada com a ansiedade quase infantil por qualquer fiapo de novidade sobre tocadas.
O tom dele, no entanto, trazia um duplo sentido. Havia o medo de que eu não soubesse negociar naquele contexto de crise e perdesse uma das poucas chances de entrar um extra para ele. Afinal, ao contrário de mim, ele tinha um emprego no setor público; dependia daquela outra metade que vinha da música — uma realidade que abraça um número assustador de trabalhadores no nosso estado. Mas o medo vinha fantasiado de esperança:
— Rhamom, vão entrar em contato com você. Parece que vão organizar uma live para arrecadar dinheiro para as pessoas que estão com dificuldade neste período. Faz de tudo pra fechar porque estamos com pouca tocada e estamos precisando.
Respondi um "Beleza!" protocolar, mas por dentro eu já via a luz no fim do túnel. Logo em seguida, a profecia se cumpre e o telefone toca novamente. Do outro lado da linha, a voz empostada, aveludada e salivante da burocracia estatal. O burocrata do governo falava em nome da "solidariedade" e do "amor ao próximo", com aquela sensibilidade tacanha típica de quem enche a boca para dizer que gosta de música, livros e arte em geral, mas não valoriza um único centavo do trabalho alheio. E, claro, pediu desconto. Afinal, era uma causa nobre, uma live solidária para salvar os famintos da crise sanitária.
Cedi. O músico, antes de tudo, é um sentimental, e o produtor é um otário e chato por excelência que acredita na dor alheia porque conhece a própria na sola do sapato. Fechei o cachê por uma mixaria, bem menos do que cobrávamos em dias normais. Mas era o que tinha. Melhor do que nada!
O ódio tecnológico e o feedback
— Bebê, deu tudo certo! Fechei lá. Não é o ideal, mas estamos precisando. Quem sabe divulga a gente e o pessoal chama para fazer mais lives.
Dessa vez, mandei o feedback via áudio de WhatsApp. Sou daquela estirpe de homens que odeia, com todas as forças, a função de ligar e receber chamadas no celular. Acho essa invenção horrível; por mim, deveriam extingui-la. Para mim, o celular serve para muitas coisas — inclusive para acabar com casamentos e nos tornar mais fúteis e procrastinadores —, mas definitivamente não foi feito para falar de viva voz. Odeio quem usa essa função comigo.
Abro apenas uma exceção jurídica: a fofoca. Fofoca boa tem que ser contada por ligação. Quem nunca se sentiu a pessoa mais importante do mundo quando o telefone toca e alguém diz: "Rapaz, tu soube da última?" Poxa, aí sim eu me sinto especial.
Pois bem, voltando...
O sucesso do banquete alheio
E veio a Live. Ah, que espetáculo de civismo e comoção! Luzes, câmeras, sorrisos de autoridades e nós ali, suando a camisa, entregando a alma nas cordas e nos vocais. O telefone não parava: dezenas de pessoas ligando, pedindo músicas, oferecendo doações e parabenizando o governo e os patrocinadores daquela "linda iniciativa". O resultado foi uma apoteose:
Mais de 70 mil reais arrecadados.
Mais de 100 toneladas de alimentos.
Um engajamento que foi além do que qualquer um imaginava.
Nos chats da transmissão ao vivo, o público se derretia: "Que ideia linda!", "Nossa, esse show me tirou da depressão", "Até esqueci que estamos em uma pandemia". Os jornais aplaudiram, as redes sociais da gestão transbordavam de autoelogios.
Nos bastidores, contudo, o tom era outro. Num dos intervalos, um dos músicos me puxou de canto:
— Porra, Rhamom! Tu viu a quantidade de dinheiro que estão doando? Dava para eles pagarem o nosso cachê cheio, né?
— Sim, dá — respondi. — Não ia custar nem 1.500 reais a mais. Pelo tanto que arrecadaram, isso para eles não fede nem cheira.
Outro músico se empolgou:
— Bora comemorar depois daqui? Nunca mais nos vimos. Eu dou uma caixinha de cerveja! Pega o carro, Rhamom, e vai atrás enquanto a gente termina o último bloco.
— Boa! Eu dou outra caixinha! — emendou o segundo.
Foi quando o terceiro músico soltou a frase que cortou o clima como uma faca:
— Rapaz... eu nem queria o cachê inteiro. Queria era um sacolão desses aí. Lá em casa a coisa tá feia.
O fato, senhoras e senhores, é de uma ironia ingrata: além de darmos o desconto, descobrimos que a caridade do governo tem memória curta e vista seletiva. Aquele dinheiro e aqueles alimentos não viram a cor de nenhum músico. Para o Estado, o artista é um ser etéreo, que se alimenta de aplausos e bebe o suor do próprio rosto. Não fomos enxergados como pais de família atingidos pela crise. Fomos apenas a isca. Usaram o nosso talento para atrair o público, usaram a nossa arte para amolecer o coração dos doadores e, no fim, o aporte financeiro para a classe foi exatamente zero. É o triunfo da generosidade com o chapéu dos outros.
A Suprema ironia do engradado
Mas o ápice do nosso apagamento, a piada pronta que coroa o nosso papel de bobos da corte, aconteceu no pós-show.
O cachê veio, minguado, como havíamos acordado. O que nos restou? Beber aquela cerveja que eu tinha corrido para comprar, para podermos sentar e resenhar sobre como a vida estava dura. Queríamos apenas tirar o gosto de poeira do palco e, por breves momentos, esquecer o peso da dúvida do amanhã que carregávamos nos ombros.
Quando fomos pegar as bebidas, a surpresa: a nossa cerveja tinha sumido da geleira do evento. Fiquei puto. Das três caixinhas que compramos com a nossa vaquinha contada, havia sobrado apenas uma. Descobri, logo depois, que toda a equipe da live — os assessores, os coordenadores, a turma que não cantou uma nota e que certamente receberia seus salários integrais no fim do mês — avançou nas nossas latas como se fossem parte de um banquete oficial. Beberam mais da metade do suor do nosso desconto.
Saímos dali com os instrumentos nas costas, os bolsos vazios e a nítida certeza de que, no grande show da solidariedade política, o artista entra com a música, o povo entra com a doação, e o governo... bem, o governo entra de penetra e ainda bebe a nossa cerveja.
Quem Salva a Arte?
Esta crítica, que fique claro, não é direcionada a uma gestão específica. Não importa se era o partido A ou B. Se fosse a oposição no poder, o roteiro teria sido escrito exatamente da mesma forma. A questão aqui é mais profunda: é sobre a hipocrisia de quem diz amar a arte, mas nunca, sob hipótese alguma, a valoriza.
Durante os dias mais sombrios do confinamento, foram a arte e o artista que salvaram o mundo de um colapso mental coletivo. As pessoas consumiram streams, leram mais livros do que costumavam ler, assistiram a séries, filmes, lives e até arriscaram escrever poesias. A arte era o passatempo, o esteio da saúde mental, a promessa de que tudo aquilo iria passar.
A arte nos salvou, mas ninguém salva a arte. E o pior de tudo é saber que quem deveria levantar essa bandeira foi justamente quem mais se serviu dela — e ainda limpou a boca na nossa toalha.
Rhamom Menezes é produtor e ativista cultural
@rhamom.menezes





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