Wagner Lopes
Cacilda Barbosa: a trajetória de uma mulher que vai além de ser viúva do saudoso ex-vereador Jessé Santiago
Há mulheres cuja história é tão frequentemente contada a partir dos homens que as cercam que, em algum momento, torna-se necessário interromper a narrativa e fazer uma pergunta simples, porém incômoda: quem é essa mulher quando retiramos dela o sobrenome, o casamento e as relações que a sociedade costuma utilizar para defini-la?
É justamente essa pergunta que me leva a refletir sobre Cacilda Barbosa. E eu a conheço há mais de 25 anos.
Durante anos, sua trajetória esteve inevitavelmente associada ao nome de Jessé Santiago, pastor da Assembleia de Deus e um dos maiores presidentes da história da Câmara Municipal de Rio Branco e, seu esposo. E seria injusto negar a importância dessa relação em sua história. Mas também seria intelectualmente limitado permitir que essa seja a principal — ou única — lente pela qual Cacilda seja observada.

Foto: redes sociais
Porque existe uma Cacilda antes, durante e para além dessa relação. Existe uma mulher cuja trajetória foi construída com estudo, trabalho, fé, atuação social, produção intelectual e, sobretudo, uma disposição incomum para buscar conhecimento.
Cacilda Barbosa possui quatro graduações: Letras, Direito, Filosofia e Teologia. À primeira vista, alguém poderia simplesmente enumerar esses títulos. Eu prefiro enxergá-los como sinais de uma inquietação intelectual.
Letras conduz à linguagem. Direito conduz às instituições, às normas e à justiça. Filosofia conduz às perguntas fundamentais sobre o homem, a existência e o conhecimento. Teologia conduz ao universo da fé e da transcendência.

Foto: redes sociais
São campos distintos, quase aparentemente desconectados. Mas talvez seja justamente aí que esteja uma das características mais interessantes de sua formação: Cacilda não parece ter construído sua trajetória acadêmica pela lógica da especialização estreita, mas pela curiosidade de quem deseja compreender o ser humano por diferentes perspectivas.
E isso, em tempos de superficialidade, não é pouca coisa.
Sua formação não termina nas graduações. Há pós-graduações em Direito Notarial e Psicopedagogia, além de mestrado. Mais uma vez, não se trata apenas de acumular certificados. Conhecimento só adquire verdadeira dimensão quando consegue ultrapassar as paredes de uma instituição de ensino e encontrar a realidade.
E foi exatamente no contato com a realidade que Cacilda também construiu parte significativa de sua história.
Durante mais de duas décadas, esteve envolvida em projetos sociais da Associação Cristã Alfa - ACALFA - da Assembleia de Deus em Rio Branco, participando de iniciativas voltadas à recuperação de pessoas em risco social e familiar, excluídas da sociedade. Esse aspecto de sua trajetória merece atenção especial porque revela uma dimensão que frequentemente é esquecida quando avaliamos pessoas pela quantidade de títulos que possuem: o conhecimento precisa produzir consequência.
Uma biblioteca pode armazenar milhares de livros e permanecer silenciosa. Uma pessoa pode acumular diplomas e jamais transformar a realidade ao seu redor.
Cacilda, ao longo de vários anos de atuação social, encontrou no trabalho comunitário uma forma de colocar conhecimento, energia e disposição a serviço de outras pessoas.
E aqui está, talvez, uma das distinções mais importantes entre possuir formação e possuir trajetória:
Formação se comprova por documentos.
Trajetória se comprova pelo tempo.
É o tempo que revela consistência. É o tempo que separa o entusiasmo passageiro do compromisso permanente. É o tempo que transforma uma intenção em história.
Cacilda também encontrou na literatura outra forma de expressão. É autora de livros, levando para a escrita parte das experiências, reflexões e conhecimentos acumulados ao longo de sua caminhada.
A escrita, afinal, é uma espécie de responsabilidade pública. Quem escreve organiza pensamentos, registra ideias e se dispõe ao julgamento silencioso de quem lê.
Por isso, quando observo a trajetória de Cacilda Barbosa, não vejo apenas uma mulher que acumulou quatro graduações, especializações e mestrado. Vejo uma pessoa que transitou por diferentes territórios do conhecimento e, paralelamente, manteve uma relação concreta com a comunidade.
Essa combinação é rara.
Vivemos uma época em que a política, a vida pública e até as relações sociais são frequentemente reduzidas à lógica das imagens, dos slogans e dos personagens cuidadosamente construídos para as redes sociais.
Nesse ambiente, talvez seja necessário recuperar uma ideia aparentemente antiga: a ideia de mérito construído no silêncio.
Nem toda trajetória começa com um palanque.
Nem toda liderança nasce de um cargo.
Nem toda influência depende de um mandato.
Há pessoas que passam anos estudando, trabalhando, escrevendo, ajudando e construindo relações sem que isso produza manchetes. E, quando finalmente decidem ocupar um espaço público mais amplo, descobrimos que havia uma história sendo construída muito antes de as luzes se acenderem.
É nesse ponto que considero importante separar duas coisas: legado e identidade.
Jesse Santiago possui sua própria história. Cacilda possui a dela.
Um casamento pode unir duas biografias, mas não transforma duas pessoas em uma só. O legado de um não anula a identidade do outro. E, sobretudo depois da perda de alguém que ocupou lugar importante na vida pública e pessoal, é natural que a sociedade tente compreender a pessoa que permanece a partir da memória daquele que partiu.
Mas Cacilda não precisa viver permanentemente como personagem secundária da história de Jesse.
Ela tem uma história própria para contar.
E talvez este seja justamente o momento de ouvi-la.
Não porque seja necessário apagar Jesse Santiago de sua biografia — seria absurdo fazê-lo —, mas porque reconhecer a história de alguém não exige diminuir ou ocultae a história de outra pessoa.
Ao contrário: é possível honrar uma memória sem viver à sombra dela.
Cacilda chega a este novo capítulo de sua vida carregando algo que não se compra, não se improvisa e não se constrói da noite para o dia: experiência.
Experiência acadêmica. Experiência social. Experiência intelectual. Experiência de vida.
Quatro graduações, especializações, mestrado, livros publicados e mais de uma década de atuação em projetos sociais não constituem, por si sós, uma garantia de nada. Nenhum currículo deveria ser transformado automaticamente em autoridade moral ou política.
Mas constituem uma base.
E bases sólidas importam.
Se Cacilda decidir transformar essa trajetória em novos desafios, caberá a ela demonstrar, no espaço público, como todo esse conhecimento poderá ser convertido em propostas, ideias, ações e resultados.
E caberá à sociedade fazer aquilo que sempre deve fazer diante de qualquer pessoa que se apresenta para novos desafios: ouvir, questionar, analisar e julgar pelo conjunto de suas ações.
É assim que deve funcionar uma sociedade madura.
Não pela adulação.
Não pela rejeição preconceituosa.
Não pelo sobrenome.
Mas pela capacidade de reconhecer histórias, confrontar ideias e avaliar resultados.
É por isso que, ao escrever sobre Cacilda Barbosa Santiago, não me interessa simplesmente dizer que ela é preparada.
Interessa-me explicar por que sua trajetória merece ser conhecida para além do vínculo familiar que durante tanto tempo ajudou a defini-la publicamente.
Há uma mulher que estudou.
Há uma mulher que trabalhou.
Há uma mulher que atuou socialmente.
Há uma mulher que escreveu.
Há uma mulher que construiu conhecimento em diferentes áreas.
E há uma mulher que agora se encontra diante de um novo desafio.
Talvez seja hora de permitir que ela seja apresentada pelo próprio nome.
Cacilda Barbosa.
Não apenas como viúva de Jesse Santiago.
Não como extensão de uma memória.
Não como personagem derivada de outra biografia.
Mas como aquilo que, ao fim e ao cabo, todos nós somos quando retiramos os rótulos: uma história em construção.
E histórias verdadeiramente interessantes não são aquelas que terminam quando uma página se encerra.
São aquelas que, justamente naquele momento, começam a revelar que ainda têm muito a dizer.
Wagner Lopes formado em Administração e tem pós-graduação em Administração Pública e Gestão de Pessoas, tem MBA em Empreendedorismo, Marketing e Finanças e atualmente, é pós-graduando em Jornalismo e em Marketing Digital





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