Artigo: Na época de Flaviano Melo se fazia mais com menos. Por que isso parece impossível hoje?
Por Leonardo Melo, Engenheiro Civil e Membro da Executiva do MDB e filho do velho lobo Flaviano Melo
Quem viveu o Acre de décadas atrás lembra.
Lembra da estrada que virava lama no inverno, da água que não chegava com regularidade, do atendimento de saúde improvisado, das dificuldades que faziam parte da rotina. Lembra também de quando essas coisas começaram, pouco a pouco, a mudar.

Flaviano Melo governou o Acre por apenas três anos, em um período de enormes limitações. O Estado tinha menos recursos, menos estrutura, menos apoio e muito mais desafios. Ainda assim, foi nesse curto espaço de tempo que surgiram obras e soluções que até hoje fazem parte da vida dos acreanos — não como lembrança distante, mas como presença concreta no cotidiano.

A Fundação Hospitalar do Acre continua sendo referência para milhares de famílias. O Teatro Plácido de Castro, o Teatrão, segue como símbolo da identidade cultural do Estado. As caixas d’água elevadas, espalhadas por bairros de Rio Branco, representam um tempo em que até os problemas mais básicos eram enfrentados com seriedade e planejamento. As estradas e ramais abertos levaram o Estado a lugares onde antes ele simplesmente não chegava.
Nada disso nasceu da abundância.
Nasceu de decisão.
Naquele tempo, governar exigia escolher. Escolher onde investir, o que priorizar, o que realmente precisava ser feito. Obra pública não era pensada para durar um mandato, mas para atravessar gerações. Não se governava com base no medo de errar, mas na responsabilidade de resolver.
Hoje, o cenário é outro. Nunca houve tantos recursos disponíveis, tantos convênios, tantas emendas, tantas possibilidades de financiamento. Ainda assim, a sensação que se espalha entre os eleitores é de frustração. Muito se anuncia, pouco permanece. Programas começam e terminam, contratos se sucedem, mas são raras as obras que se transformam em legado.

O eleitor não analisa orçamento. Ele compara experiências. Ele olha para o passado e reconhece o que ainda está de pé. Depois olha para o presente e se pergunta: o que ficará deste tempo?
Talvez a resposta esteja na forma de governar. O Estado cresceu, a burocracia se expandiu, o custo da máquina aumentou. O medo de decidir passou a ocupar o espaço da coragem de fazer. E quando governar vira apenas administrar o presente, o futuro fica em segundo plano.
Como filho de Flaviano Melo, cresci acompanhando esse jeito de governar. Vi de perto que não era fácil, mas era possível quando havia foco, prioridade e compromisso com o que realmente importava. Carregar esse sobrenome não é vantagem política. É cobrança permanente. É responsabilidade com uma história que não pode ser tratada como memória vazia.
Não se trata de voltar ao passado nem de idealizar outro tempo. Trata-se de recuperar princípios que não envelhecem: decisão, execução e visão de longo prazo. Fazer o básico bem feito. Investir no que resolve problemas reais. Governar pensando no que vai permanecer quando o cargo acabar.
No fim, a pergunta que dá título a este texto não é retórica. Ela ecoa nas ruas, nas conversas simples, no olhar do eleitor comum: por que antes se fazia mais com menos e hoje, com tanto, isso parece impossível?
Responder a essa pergunta é o primeiro passo para recolocar o Acre no caminho das obras que ficam, das decisões que importam e do futuro que se constrói — não apenas se administra.
Porque promessa passa.
Governo passa.
Mas o que é bem feito, permanece.



COMENTÁRIOS